terça-feira, 14 de abril de 2009

Um texto.

 Estava um dia lindo, lá fora. O sol brilhava, querendo mostrar o seu esplendor. Realmente, era bonito de se ver. Mas era algo que ele não podia ver, pois encontrava-se ainda de olhos fechados, com os lençóis a tapar-lhe a cara, e, claro, todo o resto do corpo. Apenas alguns dedos se mostravam lá fora, para segurar no cobertor. Mas não havia nada a fazer; o sol nascera. Além disso, o galo não tardaria a cantar.
Esfregou os olhos, ainda que estes se mantivessem fechados, e estremunhado levantou-se do fofo mas picante monte de palha onde se tinha deitado na noite anterior. Felizmente, tinha uns belos lençóis, encontrados lá num canto do estábulo, que aproveitou para se aquecer melhor.
Levantou-se e procurou algo que levasse; madeira, seria desnecessária; palha, também não, claro; que levaria, então, depois de ter passado a noite num local desconhecido, num sítio que não era seu? Era como uma obrigação, era uma espécie de jura, de promessa.
Se não levasse nada, levaria um animal; mas era também de dar nas vistas, claro. 
Ouviu o galo cantar. Tinha de se despachar ou viria alguém para levar o gado para fora, ou alimentar os animais, ou ir lá buscar ferramentas de trabalho. Não pôde fazer mais nada; tirou a sua faca, espetou-a numa ovelha, esfaqueou-a até à morte. O animal sofria, oh, como era bom ver. Uma vez, quando criança, pegara na espingarda do pai, roubara-lhe, e matara um pequeno veado. O baque de ter caído no chão fora um sinal de aviso ao guarda-florestal, o rapaz correra para casa e guardara a espingarda no lugar onde tinha encontrado. Quando o guarda chegou a casa, trazendon o veado morto e vendo o “ladrão” com ar inocente, apenas suspeitou do pai. Claro, o filho apontara para o seu criador, o seu simpático progenitor que cuidara dele com carinho e amor. Mas o miúdo não se importava; peo contrário, gostava de ver os outros sofrer.
Perdido em memórias antigas, deu por si a pensar na mãe que tivera crises nervosas, desgostos, e ataques cardíacos que, dificilmente, conseguiram desaparecer. Tudo o que o rapaz não queria era ficar preso num lugar de adopção, e como o seu pai estava preso, era ou ficar com a mãe, que sempre suspeitara do filho como o causador do crime, ou ficava num lar de adopção. Fugiu. Só agora se apercebia do estado com que a mãe poderia ter ficado. Podia ter tido mais uma crise de perdas, e como consequência podia ter mesmo morrido.
Uma lágrima escorregou-lhe pela face. Nunca pensou em ter pena dos pais, mas era o que acontecia no momento. Provavelmente, se tivesse permanecido em casa, teria ficado com uma família que o amava, incluindo o pai, que voltaria provavelmente: o ladrão fora descoberto, e era perseguido.
Perdido em pensamentos. Pensava. Memórias vinham e voltavam. Desapareciam e tornavam a chegar. O sol subia cada vez mais alto, e agora ele encontrava-se caído na palha a chorar silencioso. Mas era tarde; não podia voltar atrás.
Sem se aperceber de que os donos da casa o observavam, um deles incrédulo porque sabia que era um assassino e ladrão, que estava a chorar à sua frente; outro, o filho mais velho, contia-se de desatar a rir, sempre com o olhar reprovador da mãe para si; o mais pequeno, uma criança, queria chorar com o homm por perceber que estava triste, mas não percebnia porquê nem quem era.
E, perante todos, mas sem saber disso, o homicida espetou a faca no peito, mirada ao coração.

1 Comment:

t i a g o . said...

Que horror. Mas gostei de certas partes do texto... mas, credo!, terminou mesmo mal!